22.11.15

Transcrições das Escutas da "Operação Marquês" - "O cabrão do Mão de Ferro já tem as instruções todas para ganharmos as Presidenciais, mas ainda precisamos de marcar o encontro"








Imagem do "Expresso"





Do CD 120, da série "collector's prize" do juiz Carlos Alexandre




(2 da manhã, toca o telefone no nº 33 da Abade Faria)


R.P.S. - 'Tou, Zé?...

Zé - 'Tou, sim. Tá tudo nos conformes?...

R.P.S. - Tudo na boa, tudo a correr como esperado, tá tudo "angolado", "cabindado", "luandado"... (risos) Que cena de ruído é essa?...

Zé - Pá, agora 'tou no jacuzzi. Queres vir cá ter?...

R.P.S. - Fogo, até parece a Fonte Luminosa, quando o monhé, o poucochinho vermelho, decide despejar uns paus para isso!... 'Tás a fazer o quê no jacuzzi a esta hora, chavalo?... A fazer a "duchinha", meu sacana?... (risos)

Zé - Duchinha faz a puta da tua tia, mano!... Quantas vezes já te disse para não andares com essas conversas de merda ao telefone?... Esse cabrão do Carlos Alexandre mandou gravar tudo, fogo, vocês não aprendem nada... Quem fica mal sou sempre eu, pá...

R.P.S. - Na boa, pá, na boa, pá, desculpa...

Zé - E mesmo que eu estivesse a fazer a "duchinha", que é que tu tinhas a ver com essa cena?... Isso são coisas da vida privada, uns fazem a duchinha e os outros não, mas essa cena é do intimo de cada um, a duchinha é como a religião, cada um tem a sua, ou não tem..., mas não anda para aí a chatear os outros, não é?...

R.P.S. - Ó, pá, isso da religião até dava uma beca de conversa, isso antigamente era assim, agora já não é, mano, olha aqueles gajos todos que estavam no desemprego e o panilas do Coelho mandou emigrar, lembras-te dessa cena, e agora andam todos a cortar pescoços e a largar bombas lá no deserto, não tens a crença deles, és logo morto, caralho!... Foda-se, chega para lá, carago, eles agora estão ainda piores do que a tua mãe, com a "Sentinela" e o "Despertai" na mão, a falar do Fim do Mundo... O Fim do Mundo foi agora, quando tu estiveste no Governo, e nós agora estamos mas é no Depois do Fim do Mundo, meu, no Depois do Fim do Mundo, ponto final!... (risos)

Zé - ... que é, ou não é, pior do que o que antes estava, hein?... Confessa lá, pá, nós estamos ou não estamos "piores" agora?... (risos)

R.P.S. - Foda-se, há quem esteja, nós cá estamos em transição, como se diz aqui na SAD, nós estamos na evolução na continuidade. E de aqui a sete anos, nós vamos estar na vanguarda do Futebol Português!... Comigo, o Belenenses vai sempre à frente!... P'rá frente, Belenenses, p'rá frente, Belenenses, carago!...

Zé - Boa, e para quem começou lá em cima, até já vai em Belém, não é mano?... Upa, upa!... (risos)

R.P.S. - Exatamente: Belenenses..., Belém..., tás a ver a cena, Beleneneses... Belém?...

Zé - Tu és um clubista à maneira, amigo!... (risos)

R.P.S. - Um clubista?... Um clubista do caralho!... (risos) O meu clube sou eu!... E o teu clube és tu, e o nosso clube somos nós!... E sabes por que é que eu estou no Belenenses?...

Zé - Quer dizer... acho que é por causa do Futebol...

R.P.S. - Na..., mano..., frio... frio... muito frio... 

Zé - Pá, fogo, isso então não sei mesmo... Não tenho cabeça para adivinhas, estou bué stressado com isto da domiciliária...

R.P.S. - Mano, é assim: eu estou no Belenenses, já te disse, primeiro, por causa de Belém, mano, e, depois, por causa de Belém e só de Belém, mano, eu estou no Belenenses por causa de Belém, mano, e sabes por que é que eu estou no Belenenses por causa de Belém?... Eu estou no Belenenses, de Belém, por que eu estou só a pensar em Belém, e quando eu estou a pensar em Belém, mano, eu estou só a pensar em ti, mano..., a pensar em mim, e em mim, e em mim, e no Belenenses, e no Futebol Clube do Porto também, mas sobretudo em ti... Em ti, mano..., em ti... e em Belém, mano!...

Zé - Pá, eu nunca tinha pensado nisso, mas não é que até está bem visto, porra...

R.P.S. - Claro que está bem visto, mano, o pessoal só quer é o teu bem, a nossa filosofia é o teu bem, carago, e o teu bem é o nosso bem, o bem do pessoal todo que gosta de ti, do pessoal que acredita em vi, do pessoal que te apoia, que te vem visitar, que te telefona, que não se esquece de ti, que acha que tu és o maior, carago, Zé, e tu és o maior, fogo, c'um caralho, Zé, tu é o maior político de Lisboa, do Porto, de Portugal, pá, e é por causa disso que o pessoal te quer pôr agora em Belém!... Sócrates a Belém!..., Já 'tás a ver o cartaz, meu, ainda com as corzinhas todas da PaF, mas os escritos já a falarem só de ti!... Olha aqui para as minhas mãos, Zé, as letrinhas a brilharem muito, assim, nuns flashes, "Sócrates em Belém", o nosso Sócrates, em Belém, Sócrates, o presidente de todos os portugueses!...

Zé - Tá bem visto, mas achas que vou ser mesmo de todos os portugueses?...

R.P.S. - Pá, de todos e dos outros também, pá..., o fundamental é um gajo chegar lá acima, quando já lá se está, aquilo vai doucement, doucement..., com calminha..., naturalidade, como (risos) como... a "duchinha", carago... (risos)

Zé - Mas eu não sei s'agora já é o tempo ideal para isso...

R.P.S. - Pá, estas cenas só têm um tempo ideal que é quando têm de ser, e a tua candidatura a presidente tem de ser agora, e o que tem de ser tem muita força, ou não é?... O que tem de ser tem muita força, Zé, é assim que é, e é assim que sempre foi..., e... escuta... sempre assim há de ser, Zé, pá, o que tem de ser tem muita força, carago, e o Zé em Presidente é uma coisa que tem mesmo muita força, tem a força toda, Zé, e tem de ser, Zé, porra... Já "óvistes" o que anda a dizer o "Mãozinhas", o Mão de Ferro, ou não?...

Zé - Que é que diz o "Mãozinhas"?...

R.P.S. - Pá, o que diz o "Mãozinhas" é o mesmo que diz o Carlos, e diz o Seixas da Costa, e diz o Tó Morais, e diz o "Gordo", e diz o Bataglia, e diz o Zé Paulo, e diz o Carlos, e diz o Barroca, e diz o Van Dooren, e diz o Lalanda, e diz o Perna, e diz o Godinho, e diz a Bárbara, e diz também a Sofia, e diz também a Mara, e mais a Inês, e a Rita, e a Fernanda, pá, e a Sandra, a Célia, e a tua mãe, pá, tu queres mais, foda-se?!... O pessoal, todo, o pessoal todo, todinho, todos dizem o mesmo, e só não falam os que não podem falar, mano, há pessoal que agora não pode falar, pessoal que tem de estar muito calado, pá, mas esse pessoal está todo a pensar, mano, e é muito pessoal, mesmo muito pessoal..., pessoal com muita força, mano, pessoal que agora tem de estar calado, mas que está contigo, mano, pessoal que faz força, muita força, por ti, carago, pessoal que acredita em ti, pessoal que sabe que foste o único político que pôs esta merda a rodar, a faturar, a andar, o único que deu visibilidade mundial a esta choldra, pá, esta merda era um pardieiro antes de tu teres chegado ao governo, lembras-te, mano, só lama e fumaça?... Isto os gajos deviam estar todos gratos, este país devia era estar todo de joelhos, a agradecer-te, pá, devia haver um Antes de Sócrates e um Depois de Sócrates, e o Antes de Sócrates até nunca existiu, meu, carago, só o depois!... Escuta lá, eu amanhã vou pôr os gajos lá da SAD a ligarem ao Francisquinho, para porem essa merda do Antes de Sócrates e Depois de Sócrates lá no calendário, tá?... (risos)

Zé - Rui, é assim, Belém acho qu'até me fica bem, assenta bem no meu estilo de vestir, maneira de estar, sei lá, pá, eu até acho que até fiz algumas merdas por este país...

R.P.S. - Claro que fizeste merda neste país, Zé, e este país sabe disso, Zé, este país sabe disso, da merda que tu fizeste, quantos portugueses é que não vieram procurar a tua porta, pá, bater às tuas portas todas, mano, a de casa, a de Évora, pá, gente que chorava à tua porta, eu vi, Zé, foi na televisão, mas eu vi, podiam ser as nossas mães, a chorar ali, de braço no ar, cartaz no punho, pá, mulheres... mesmo gente a sério, a chorarem, pareciam refugiadas, carago, aquela gente era capaz de morrer por ti, Zé, aquela gente vai votar em ti, acredita, Zé, e vai levar muito mais gente atrás deles, acredita no que eu te estou a dizer, Zé, aquilo são só votos, Zé, muitos votos..., a multiplicar..., votos a pingar..., votos a faturar..., é só tu quereres, Zé!...

Zé - Rui, eu neste momento não sei mesmo como é que está esta porra deste país...

R.P.S. - Esta porra deste país está como sempre esteve, pá!... Tu tens é de perceber em que país é que estás, e este país 'tá na mesma há muitos séculos, mano, se tu estiveres do lado do Futebol e de Fátima, tens tudo, se estás sem o Futebol e sem Fátima, não és nada, chavalo, és um merdas, um badochas, um mete nojo, um vale nada!... Esta merda é governada por aquilo em que as cotas acreditam e por aquilo em que as cotas não acreditam, se estiveres do lado daquilo em que as cotas não acreditam, estás lixado, agora, é assim, Zé, tu estás preso há quase um ano, o pessoal chorou por ti, foi visitar-te a Évora, tu deste entrevistas, foste tratado como um senhor, estiveste dentro, mas nunca te calaram a boca, não foi, Zé?... E isso quer dizer muito, quer dizer que mesmo o pessoal que te meteu dentro acreditava em ti, tinha muito carinho por ti, achava que tu ias longe, Zé, e vais, tens é de te colocar do lado do Futebol e de Fátima, se estiveres do lado do Futebol e de Fátima, se estiveres do outro lado, não tens nada, pá, agora tu estás na maior, mano, o martírio... já pensaste, pá, esses cabrões, o Carlos Alexandre, e o outro, o Teixeira, esses gajos deram-te o martírio, fizeram de ti um mártir, tu és um mártir português, estás como a Senhora de Fátima, as velhas acreditam todas em ti, rezam por ti, pedem para seres solto, só faltou irem a Évora de joelhos e de lencinho branco, pá..., que é que tu queres mais?..., já tens Fátima contigo, agora, só te falta o Futebol, mano, e o Futebol, Zé, o Futebol sou eu!... Ainda estás com dúvidas?... Porra, não estejas, agora já não há dúvidas, o pior já passou, agora é sempre a abrir, sempre a faturar, até à Presidência!...

Zé - A cena, Rui, é que eu já ouvi que o bêbedo está a apoiar a anã...

R.P.S. - Ó, pá, a anã nem entra nas contabilidades, aquilo foi uma manobra de distração... Tu para veres a gaja tens de olhar para baixo, pá, já pensaste nisso?... Os Portugueses precisam é de um candidato como tu, para os pôr a olhar para cima, não é para baixo!... Um gajo, quando se sente queimado, deve fazer como o Berlusconi, e não desistir, e apontar para cima, sempre para cima!... Olha para o Berlusconi, pá, aquilo é que deve ser o teu exemplo, quanto mais queimado estava mais subia, o gajo dez anos sempre a abrir, só esquemas, só calotes, só gajas boas, só gajos abatidos pelas costas, e a Itália acabou?... Não, não acabou, a Itália até progrediu, p'rá frente, sempre a abrir..., o milagre italiano, Zé, o milagre italiano!... O país precisa de ti, não é da anã!... Tu já ouviste a gaja a falar?... (risos) Parece que tem um supositório na boca, foda-se, c'um caralho, um supositório enfiado p'âquela boca adentro!... (risos) Aquilo não é a duchinha, Zé, aquilo parece mais a boca da chuchinha..., é a Chuchinha Vermelha, foda-se... (risos) a gaja começa a falar, a falar, com aquele tom de aconselhamento familiar... (risos) parece aquelas gajas depressivas que se andam a automedicar, com umas g'andas olheiras, toda amarela, caralho, a boca azeda, e a cheirarem a bafio, carago, (risos) a gaja está para ali, a falar do país e parece que está a receitar aspirinas... (risos) a gaja parece um Benuron mirrado a ganir!... (risos) um gajo a querer saber de politica externa e ela põe aquelas verrugas todas para a frente e começa a dizer, muito pausada, parece que tem uma canadiana enterrada na boca, "um meio ao pequeno almoço, e um meio ao almoço, e um inteiro ao deitar..." (risos) Aquilo mete pena, pá, fogo, este país desceu muito baixo, mesmo muito baixo, que tristeza, essa gaja devia era candidatar-se à "Pharmácia Ideal da Rua dos Correeiros"... (risos), e mesmo assim nem ia ser a diretora clínica daquilo, diretora um caraças, a gaja ia mas era ser a amostra clínica da farmácia, carago... (risos) Este país é uma paródia, mano, não se pode levar nada a sério, pá, é tudo a fingir, e quanto mais se finge mais os gajos acreditam..., Zé, acredita. os gajos acreditam em tudo..., pá, tudo... eles acreditam em tudo... isto é uma paródia, carago...

Zé - Ó Rui, pá, tudo bem,  mas o problema é que não é só a anã, pá... e se a anã já foi apoiada pelo "bêbado" de Argel...

R.P.S. - Pá, o pessoal quer que esse "bêbado" s'â foda!..., o "bêbado" está todo desativado... todo queimado... todo queimadinho!... o "bêbado" já encostou às boxes, pá, já encostou, só que se esqueceram de o avisar (risos) já encostou às boxes, só que ele ainda não sabe que está todo encostado... (risos) ainda não recebeu o postalinho, a avisar... O, pá, o futuro, agora, é da gente, de ti, de mim, do Galamba, (risos) o "bêbado" está como a Amália, deixa-o andar, ele anda entretido, deixa andar, enquanto ele anda naquilo, não anda na droga, carago... (risos) E há mais, ó, Zé, tu não tens de te preocupar mesmo nada com esse caralhete, mano, por que tudo o que esse caralhete apoiou... perdeu... (risos) É, ou não é, Zé?... Tudo o que esse gajo apoiou... perdeu, mano, a começar por ele, a passar por ele, e a acabar nele, pá. Esse gajo perde sempre, mano, esse gajo o máximo que conseguiu foi meter o cabrão de Boliqueime duas vezes em Belém, mano, duas vezes, "óviste" bem, mano, duas vezes?... e o gajo não aprendeu nada, pá, nada, esse gajo não aprendeu nada, pá, esse gajo até parece que gosta de perder, carago, o gajo deve ser masoquista..., foda-se, deve ter o cérebro todo grelhado..., porra, meteu o Cavaco duas vezes em Belém, fogo, e não aprendeu, pá, o gajo não aprendeu nada, Zé!... E agora, c'um caralho, ainda vem apoiar a anã?... Deixa lá o gajo apoiar a anã, que s'â foda ele mais a anã!... Mau era se ele te apoiasse a ti, Zé, por que tu ainda perdias (risos) A gente não precisa desses apoios para nada, pá..., a gente aposta muito mais alto, muito mais forte, em pessoal com meios, meios a sério, pessoal que acredita mesmo nos seus fins, nos fins deles..., nos nossos fins, mano..., nos fins do pessoal que realmente interessa em Portugal!... A gente quer é ganhar!... É, ou não é, Zé?..

Zé - Claro que é, Rui, claro que é, mas há mais gajos em cena, para além da rodas baixas... há aquele gajo das universidades...

R.P.S. - O Nódoa?... Pá, mas isso é uma nódoa!... Isso é uma invenção do Eanes, do "fale assem", do "lá de cema", do "axo axim", esses gajos deviam estar todos na reforma, carago, parecem a brigada do cangalho, deviam estar todos nas sucatas do Godinho, mas ainda andam a arrastar-se por esta merda fora!... Esse cota é uma encomenda dessa merda da Opus Dei, para andar a fazer fretes ao de Boliqueime..., o gajo queria continuar a mama, começava no vovô Eanes e na freirinha dele, a Manuela dos aleijadinhos, borrava-se todo pelo Cavaco e pela Maria, e depois vinha agora o Nódoa, isso não era uma presidência, pá, isso era uma procissão de macas na urgência do São José!... Pá, fartos de nódoas andamos nós, foda-se, caralho!... Esses gajos precisavam é do "Vanish" tira-nódoas, com o "Vanish" essa merda saía logo toda..., ficavam no pano na primeira volta, e depois nem era preciso o "Vanish" Gold, ia mesmo com o "Vanish" barato!... (risos) Tu ouviste o gajo a dizer que já pensava como presidente?... Fogo, c'um caralho, o que eu me ri quando ouvi isso, ia-me mijando todo!... (gargalhada)  Estes gajos não se enxergam... (risos) Não se enxergam mesmo nada (risos) Vêm todos de um caralho de um poço, todos de um buraco qualquer, e depois trazem o poço dentro da cabeça, para Lisboa... Isto é o país dos gajos com um poço no lugar da cabeça... (risos) E querem chegar a presidentes?... Atrasados d'um caralho (risos) O gajo já pensava como Presidente?... (risos) Presidente sou eu, carago, presidente da SAD do Belenenses, o maior clube do Mundo, a carburar desde 1919..., exatamente, 23 de setembro de 1919, Zé, nós somos o clube do Restelo, a zona onde moram as gajas mais boas do país..., g'anda Restelo, isto é que é ser presidente, e eu sou o presidente do Belenenses e tu vais ser o Presidente de Belém e de todos os Portugueses, carago, e é já de aqui a três meses, Zé, tá no papo!... Queres apostar comigo, queres apostar?...

Zé - Mano, o problema é que o Nódoa até tem algumas ideias, no outro dia, estava numa conferência, a falar de... de... acho que era... poderes e limites da palavra presidenciável, acho...

R.P.S. - De quê?... A falar de quê?... (risos) O que é que esses gajos percebem da realidade, do país real, do país que vota?... O que ganha, neste país, é sempre aquilo em que as velhas acreditam, mano, mai' nada, só ganha aquilo em que as velhas acreditam, aquilo em que as velhas não acreditam não ganha!... Isto é muito simples, muito elementar, Zé, tu olha sempre para as velhas, tu orienta-te pelas velhas, mano, e ganhas sempre. Tudo o resto são gajos a delirar, só gajos a delirar nesta merda, o "bêbado" dizem que é por que bebe, mas esses gajos é que parece que estão sempre "bêbados", carago, isto parece um país só de "bêbados", fogo!...

Zé - O problema é que se essa filosofia pega...

R.P.S. - Filosofia, qual filosofia, Zé?... Que é essa merda da filosofia?... Quem é que anda aqui a falar de filosofia?... Filosofia é contigo, Zé!... (risos) Contigo e com o João Constâncio, o filho do outro, carago!... (risos) Vocês são muito bons em Filosofia!... Sabem muito, e até de filosofia... (risos) Vocês são uns grandes filósofos, mano (risos)... Vocês são os maiores filósofos de Portugal!... (risos) Deixa-te disso, o país não precisa de filosofias, o país precisa é de cenas reais, de gajos com tomates, de gajos em quem o pessoal acredite, Zé, de pessoal como tu, de pessoal que meta confiança, pessoal em quem o pessoal possa confiar, um gajo sério, na Presidência da República...

Zé - E o Marcelo?...

R.P.S. - Qual Marcelo?... Quem é o Marcelo, pá?... Quem é que te meteu isso do Marcelo na cabeça, mano?... Esse gajo, quando se sentir apertado, desiste logo!... Esse gajo, quando souber que tu vais concorrer... (risos) o gajo até se borra todo, o gajo tem mais medo de ti que do ISIS, do Daesh, caralho..., o gajo não suporta concorrência, é daqueles que só concorre para ganhar, quando percebe que pode perder, começa logo a escorregar, a perder o gás... O gajo não tem discurso, pá, tu já "óviste" bem o gajo a falar?... Está sempre a dizer as mesmas coisas, sempre às voltas, sempre às voltas, sempre a repetir-se, o discurso dele acaba sempre com a mesma palavra, é sempre a mesma, "PSD"..., isso do PSD já foi, pá, o pessoal, agora, as velhas, são todas do PS, estão todas de maioria de esquerda, estão todas contigo!... Tu já viste bem como o Marcelo está, esse gajo está todo tremeliques, parece a múmia de Boliqueime, mas em versão intelectual!..., a múmia tinha ataques, punha a boca em O, pá... mas esse gajo, agora, está muito pior, parece um peixe, sempre a abrir e a fechar a boca, o gajo, entre duas palavras, parece que tem de vir à tona respirar..., esse gajo já não se safa, carago..., este país parece que só consegue amanhar candidatos com defeito, porra, só doentes, 'tá tudo com tremeliques, tudo a babar-se, e é por isso que tu vais ganhar, pá, se não for à primeira, vais à segunda, os indecisos juntam-se todos à tua volta, e fazes um pleno da esquerda, e do centro, e até da direita, que há muito pessoal que ainda se lembra das manhas todas que aprendeste quando andavas na juventude da JSD, grande escola, meu cabrão de merda!... Ah, g'anda escola...

Zé - E a Marisa?...

R.P.S. - Eh, pá, isso é outro filme!... Essa gaja é muito boa, foda-se, quando vi aquele cartaz disse logo, esta gaja vai longe, e até pode ir, mas quem tratava dela era eu... (risos) Marisa com todos, fogo, essa é bué forte, pôr ali logo no cartaz que... que... aviava todos, essa gaja vai à segunda volta, acredita, aliás, se houver segunda volta, vão ser só vocês os três, tu, o Marcelo e a gaja, mas no fim ganhas sempre tu!...

Zé - O Bloco vai apoiar-me???... Sinceramente... pá...

R.P.S. - Sinceramente... Pá, é assim, eu nunca fui dessas cenas, sabes que eu só tenho dois amores na minha vida, o Futebol Clube do Porto e o Belenenses, e, agora, as manas Mortáguas, foda-se, gajas tão boas, ali é que eu dava uma geraldina, punha as duas de perna aberta, sentadas em cima de uma mesa, ajoelhava-me... fogo, até podia ser de olhos vendados, a passar a língua de uma para a outra, eu acho que ia saber bué da bem, só pelo sabor, quem era uma e outra..., e depois levava as duas à segunda volta, ai, levava, levava..., e ah, g'anda segunda volta, e elegia as duas, à segunda volta, ai, não, que não elegia, caraças... ah, carago, que até já estou de pau feito!...

Zé - (silêncio)

R.P.S. - Foda-se!... Gajas tão boas!...

Zé - (silêncio)

R.P.S. - (silêncio) 'tás aí, Zé?...

Zé - (silêncio)... sim.

R.P.S. - Então ficamos como?...

Zé - Pá, eu não tenho nada contra, mas tem de ser uma coisa segura... E faz-se como?...

R.P.S. - Primeiro, vai ser preciso juntar fotocópias, fotocópias pequenas, grandes, apontamentos, documentos, livros, aquilo, a coisa, aquilo de que tu gostas muito, robalos, vinho, tudo o que vier à mão, e depois vamos buscar as fotocópias dos testes do Duda, mandar vir do país inteiro muitas garrafas, dentro de envelopes bem fechadinhos, e com fita cola (risos) vamos fotocopiar o país inteiro, e meter tudo dentro de envelopes, bem apertadinhos (risos). A tua campanha, Zé, vai ser um sucesso. Depois, temos de escarrapachar com essa merda toda nos jornais, nas televisões, na Net, no Facebook, no Tweeter. No "Notícias" a Nanda trata dessa cena, acho, a gaja é muito boa no que faz, primeiro, low profile, depois, mais assumido, uma cena a dar a cara, assim, repetida, com força, com militância, todos os dias... Não podemos é contar com o cabrão do Balsemão, mas damos a volta por fora, o que não falta são recursos, há o Paes do Amaral e a Fatucha...

Zé - Qual Fatucha?...

R.P.S. -  A Campos Ferreira, pá, essa puta já te fez bué d'a fretes, tirou-te de muitas merdas, ainda quando eras Prime, e de certeza que te faz mais, se a gente falar com ela, a gaja é segura, e é boa para a publicidade, pá, temos é de fazer a coisa com calma, nós temos... tu tens... mano, tu tens muitos amigos, acredita, mano, tu tens muitos amigos, pessoal que te deve muita coisa, e pessoal que gosta mesmo de ti, e pessoal que gosta só por gostar... sei lá, e depois tem de se fazer o anúncio público, dás umas conferências num sítio e noutro, e depois...

Zé - ... depois... E antes do depois?...

R.P.S. - Pá, o que é que queres saber agora?...

Zé - Pá, para todos os efeitos, eu ainda estou em domiciliária...

R.P.S. - Estás agora, mas não vais estar sempre, carago!... Ou vais?... Claro que não vais, aliás, o nosso esquema é dar a volta a isso, os gajos, mesmo que tivessem alguma coisa contra ti, e não têm, pá, acredita que esta merda vai dar toda em nada, não te esqueças de que estás em Portugal, na nossa terra, essa merda vai dar toda em nada, mas até lá tu és eleito, e ficas como o Berlusconi, com imunidade, pá, dez anos de imunidade, depois de dez anos quem é que já se lembra dessa merda toda?... Olha para o cavaco, não foi assim que o gajo se safou, enterrado até ao pescoço em merdas, no BPN, na Coelha, numa porrada de merdas, foda-se, o importante, agora é a eleição, e a domiciliária, pá... isso, isso... é uma coisa que se dá um jeito, é só um gajo querer, e dá-se um jeito, ou não é?...

Zé - Pá...

R.P.S. - Pá, não 'tejas preocupado, outra cena que tem de se fazer é calar as oposições, gente que gosta de fazer muito barulho... pá, a esses é cortar os pés antes de começarem a andar... Gajos que gostam de falar muito... a gente cala-os, arranja aí um tribunal para lhes calar a boca...

Zé - Mas um tribunal é mais complicado...

R.P.S. - É mais complicado o quê, carago, em que mundo é que tu estás?... Até parece que nasceste ontem, ó, Zé!... Os tribunais estão todos à distância de um telefonema, pá!... É o custo de uma chamada!... E se for naqueles pacotes grátis para todas as redes, ainda sai de graça...., ainda pagam!... (risos) Os gajos ainda te pagam... (risos) Temos é de telefonar para a pessoa certa!... E ficam com o bico calado para sempre!... Tem é de ser uma coisa bem feita, tipo, nem os deixar respirar, e se deixarmos essa merda bem tapada, acalmar uns quantos, a Cabrita, a Laranjo, e há esse gajo do "Sol", o Diogo Santos, esse gajo é perigoso, anda a tentar subir, já entalou o Relvas no "i", mas a gente trata dele, se for preciso, uns sapatos de betão, aliás isto não é para sempre, é só para durar meia dúzia de meses, depois, quando tu já estiveres eleito, os gajos podem ladrar à vontade, os gajos que ladrem, pá..., a ver se um gajo depois se importa, o importante é chegar lá, mas não te preocupes com isso, eu vou ver o gajo ideal para se telefonar, aliás, o ideal até era arranjar uma gaja, sim, uma gaja, as gajas são mais rijas, dão uma ordem e cai tudo logo de joelhos, é preciso é arranjar uma que tenha o rabo preso, para se mexer bem, olha..., estilo o Rangel, lembras-te?... foi só lembrar ao gajo que tinha o cuzinho a arder em Angola, a ver se o gajo não veio, muito meiguinho, comer à nossa mão... Veio, ou não veio, Zé?... (risos) Veio, ou não veio, logo, comer à nossa mão?... (risos) Parecia um passarinho, foda-se... (risos)

Zé - E tu tratas disso?...

R.P.S. - Claro que trato, Zé!... Alguma vez te falhei com alguma coisa?... Diz lá, alguma vez eu te falhei com alguma coisa?... Nunca falhei, pois não, por que ia falhar agora, carago?...

Zé - Rui, é verdade, confio em ti...

R.P.S. - E depois para arrematar esta merda toda, fazemos um almoço ou um jantar de apoiantes... Na Feira Popular até era o ideal, mas essa merda está toda fechada, é pena... Deixa cá ver... Pronto, fazemos na FIL, na antiga, talvez, a antiga fica mais próxima de Belém, e encenamos essa merda, os gajos vão lá para te ver, te apoiar... e depois... é isso, vou já mandar bué de convites, chamar o pessoal todo, para novembro, sim..., novembro é o melhor..., e quando estiverem lá todos a almoçar, Zé..., assim uma cena bué da íntima..., o pessoal a almoçar, todo empolgado, todo esquentado, pá, as garrafas a abrir, só gajos a olharem para ti... e então eu dou-te um toque com o pé, debaixo da mesa... e tu pedes um minuto de silêncio, mano, tu pões aquele teu ar sério, aquela pose de estado à Henrique Santana, que o pessoal adora, agarras no Soares pela mão, o gajo está choné, mas isso ainda põe as velhas mais comovidas, mais a chorar, mais concentradas em ti, e levantas-te, e dizes assim aos gajos..., pá..., isto é uma decisão irredutível, uma decisão irrevogável... e dizes que tu te vais candidatar à Presidência da República, pá..., vão chover palmas, as velhinhas a chorar..., apoios, it's raining men, meu... e, em janeiro Zé, em janeiro, já tu estás eleito, Zé, eleito nas calmas, Zé..., na boinha, meu, na imunidade, Zé, eleito o Presidente de todos os Portugueses!...


(Fim da gravação)




(Quarteto do José Sócrates Presidente, ah, pois, Presidente de todos os Portugueses, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")





17.11.15

Daesh








Faz agora parte do meu currículo de lotarias negras, por jus e direito, a previsão desta guerra. Esta guerra tem, sobre tantas outras, a virtude de ter tido uma demasiado longa preparação, já que, a sermos minuciosamente corretos, a sua origem tem raízes nos já remotos anos 80. Os pais desta guerra são uma tríade fundamentalista, cujas caras mais conhecidas são Reagan, Tatcher e Woytila. Se nos viramos para o nosso quintal, poderemos acrescentar mais um rosto do crime, Aníbal Cavaco Silva.

A doutrina pregada por esta tríade fundamentalista, como todas as pragas religiosas, assentava num conjunto de preceitos manado dos escritos de Milton Fiedman, um profeta do XX século do Vale de Chicago. Para Friedman, os números eram importantes, e os humanos deviam adorar o seu Bezerro de Ouro, cuja adoração passava por alguns oferecerem os outros, em sacrifício, no seu altar. Friedman espalhara a sua palavra por várias planícies da América, semeando a devastação pelas terras onde instalara o seu culto. Melhor do que todos os cataclismos, devorara o Chile, e mais teria devorado, se o deixassem.

Estas pragas assentaram num princípio básico dos recursos e da Economia, a de não haver mundo suficiente para tantos homens, o que, como corolário, levou a que o mundo ficasse ao serviço de alguns, com os outros todos a ver. Creio que deram a isto o nome de Neoliberalismo, e a coisa instalou-se. Deixada a linguagem bíblica, este processo levou a uma vandalização social global, com consequências em todos os patamares de escala. Para um urbanista, como eu, a coisa ainda teve algumas sequelas particularmente curiosas, pois coincidiu com uma substituição do eixo de valores urbanos por uma emergência de novos padrões de subúrbio. Dava um longo texto a explanação deste ciclo de desertificação das cidades, com sequente aglomeração de populações em cercanias inóspitas e hostis. Paris, como Lisboa, sofreu dessa erosão, e transformou-se num lugar de passagem, a pior coisa que pode acontecer a uma urbe, o converter-se num cenário. Esta conversão em cenários marcou irreversivelmente a decadência da ideia ocidental de casa, e este declínio é fundamental neste processo, já que a ideia de que não se está no nosso território permitiu o desastre até à ultimas consequências.

Ao desastre do Fundamentalismo de Friedman juntou-se a estagnação do Pensamento de Bilderberg e o seu Fim da História, o que quer dizer que aos ostracizados da periferia, uma segregação no Espaço, se juntou a impossibilidade geracional da renovação, uma cela no Tempo. Fechados no Espaço e no Tempo, os sem destino da História passaram a ser reprimidos, e seria objeto de análise mais profunda o modo como se passou dos subúrbios de Londres, Paris e Lisboa para os desertos da Síria. Curiosamente, esta é uma guerra dos quintais, onde se vai longe limpar aquilo que, em devido tempo, se devia ter limpado perto. E sendo este um panfleto de mero posicionamento, não vai mais longe, e por aqui fica, como introdução a um texto (continua).


(Quarteto para um tempo de guerra, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")

8.11.15

Lenda do Poucochinho Monhé e da Múmia Má de Boliqueime







Imagem do Kaos

A melhor qualidade da Democracia é a sua infinita capacidade de adaptação, por contraposição às enormes limitações, demonstradas pelos seus políticos voláteis. Sendo que esta frase constitui o lugar implícito de um ad libitum, fica para vocês declinarem os adequados corolários, e eu vou só aos que me interessam, começando pelo Quisto da Democracia, Aníbal de Boliqueime. Se fizermos um cronograma do período democrático, verificamos que há uma janela, entre 1974 e 1985, no qual se dá uma rapsódia de tendências, uma enorme panóplia de experiências, uma sucessão infantil de sucessos e fracassos, umas quantas coisas gloriosas, e outras tantas tenebrosas. Quando chega 85, chega a anomalia de Boliqueime, e cai uma cortina de cinza e silêncio sobre a experiência das agitações: Cavaco Silva foi a SIDA da Democracia, e com plena consciência e usufruto.

O resto já também sabem, e a coisa só poderia, como pode, piorar, com o seu regresso, em 2005, sendo que, dos 40 anos de Democracia em Portugal, 20 deles foram gangrenados por uma coisa que ninguém desejaria, insomne, perversa e estagnada. Tem este período a particularidade de ter constituído um para autismo nacional, já que enquanto a Europa navegava em plena Guerra Fria, nós davamo-nos ao luxo de andar a contar cravos e a fazer arruaças pelo campo; quando as trevas do reaganismo, do tatcherismo e do woytilismo caíarm sobre o Velho Continente, nós já estavamos razoavelmente adaptados, e alinhamos, com uma múmia algarvia, na paralisação das frentes hippies. Os seus eleitores andam agora a uivar, às portas do Novo Banco.

O Sr. Aníbal, "integrado (no então) actual regime político", teve a estranha coerência de continuar integrado nele, mesmo depois de extinto, e esta é a primeira manifestação de complacência da nossa democracia, a de continuar a encenar uma bolha de neomarcelismo, para que o frequentador das escolas profissionais do Antigo Regime, e doutorado por York (!) -- as bolsas da Gulbenkian pagaram tudo neste país, até isso... --, pudesse viver na ilusão de que o "antigamente" tinha continuado, e ele podia, por imprevisto milagre post mortem, vir a exercer as funções com que sonhara, no País do Cabeça de Abóbora. A coisa nada tem de extraordinária, já que ao António de Santa Comba, já depois de caído da cadeirinha, e substituído pelo Caetano, também continuaram a assegurar pseudo conselhos de ministros, para que não percebesse que o seu tempo tinha acabado. Aparentemente, esta sucessiva folga para a farsa parece assentar numa espécie de saco azul dos orçamentos, e tem um lado pietista, já que permite a grandes cadáveres viverem num estranho verão indiano do seu autismo.

O Verão Indiano de Aníbal de Boliqueime durou 20 anos, e custou demasiado caro à Democracia. Veremos o que lhe vai agora suceder.

A seguir a Aníbal, não vêm os políticos, mas, curiosamente, os comentadores políticos. Os comentadores políticos dividem-se em três espécies, os muito bons, os correntes e os maus. Como dizia Satie, esta última espécie não existe. Na verdade, o nosso ecossistema necessita de uma recalibração e qualificação da espécie: há os comentadores políticos de direita, os que acham que conseguem convencer o público de que não são de direita, os que têm dias, e os chatos de esquerda. Na cauda disto tudo, estão o Luís Delgado, o Marques "Magoo" Mendes e a Ana Gomes, quando o álcool bolsa nela, ou cretinos absolutos, como o "Dona Coisinha", Álvaro Barreto. Sobre esta fauna, curiosa, insuportável e impulsionadora de bocejos, caiu um raio, em outubro de 2015. Como atrás disse, as Legislativas de 2015 ficaram marcadas no meu coração como o último momento em que a Democracia se podia exprimir, para poder dizer ao Cancro de Boliqueime quão nefasto ele lhe tinha sido. Creio que arranjaram uma solução elegante para lhe provocar mal estar, e mostrar que a Democracia, é, de facto, mais forte do que todas as neoplasias cavacais e marianas, e é, pois é. Não vamos entrar no domínio das suposições, e imaginar que uns poderiam ter perdido por um pouco mais, e os outros ganhado por um pouco menos, a verdade é que, para grande desilusão das infeções da comunicação social, as coisas não correram como previsto. Isto, apesar de uma gloriosa última noite de injeção, a que assisti, boquiaberto: a garganta funda de Portugal, Maria João Avillez, de sotaque de barril, de um lado, e o Júdice, sinistro, do outro, a fingirem que eram os matizes do Centro, um mais de um lado, o outro, mais do outro, mas, na verdade, a carburarem o pleno das madrassas balsemânicas. Puseram-se nos bicos dos pés, embalaram as serpentes dos votantes, mas não conseguiram o prodígio das maiorias absolutas. Tiveram azar.

Como democrata, intelectual e artista, detesto as maiorias absolutas. As maiorias absolutas são a expressão parlamentar da intolerância, e o governo ostensivo da arbitrariedade, ao contrário dos jogos palatinos do entendimento, da superação e da cordialidade. Creio que se fosse necessário resumir numa frase o que me separou de Cavaco Silva, para sempre, mentiria, e diria que foi exatamente isto, e nada mais do que isto. Ao contrário dele, estou sempre desintegrado de todas as soluções políticas, e sempre à espera de que os regimes iniciem uma rota de ascensão, de modo a chegarem ao patamar elevado das nossas reflexões. Curiosamente, em outubro de 2015, o regime, depois de ter sido substantivas vezes dado como agonizante, resolveu surpreender-nos, mostrando que a Democracia estava ativa, efervescente e queria renovar-se. Não vou entrar em considerações sobre o que agora está a acontecer: António Costa, o homem do momento, está a jogar uma extraordinária cartada histórica, e, ou é bem sucedido, ou arrasta para sempre, e para um limbo indescritível, um pano inteiro do multipartidarismo. Vamos ser otimistas, e acreditar que a experiência será revitalizante: o resto são considerações humorísticas. Por um lado, as considerações do ecossistema alteraram-se: como as criancinhas foram todas obrigadas a emigrar, os comunistas já não têm que comer ao pequeno almoço, pelo que me parece igualmente arriscada uma libertação condicional do Carlos Cruz. O Bloco cumpriu o desígnio para que Guterres o criou, o de se aliar ao Partido Socialista, e ainda agora a procissão vai no adro. O resto são alianças com animais.

Poderia, e depois escreverei, como um governo que venha a integrar o Galamba, tal como aquele que integrou o Carrilho, é, por essência, uma nado morto. Enquanto durar, todavia, cumprirá o ditame da folga das costas, tal como a enuncia o ditado, e permitirá os verdadeiros aconchegos dos bastidores, como o arranque para catedrático do mestre do Galamba, o filho do Outro: o concurso está aí, e nós vamos pagá-lo, tal como pagamos as nomeações, in extremis, do Coelho da despedida. O país não mudou em nada, e não há reformas estruturais que logrem alcançar este patamar do sarro nacional: é endémico e sistémico, e só gemem os que ficam sempre de fora. Curiosamente, toda a gente dá o Aníbal como manietado, mas eu sou mais prudente. A criatura é sinistra e já deve ter percebido que a aliança de "esquerda" é um recado envenado para que ele, que julgava ir inscrever-se na História como um tempo mais pardo da Democracia, lá acabe associado a uma linha em que se dirá que teve de dar posse a um Governo dos "comunistas". Pelo que conheço das suas limitações, isso é demasiado para o seu poder de encaixe, limitado à Assembleia "Nacional", ao Dia da Raça e à Mocidade Portuguesa. Quem lhe fez isto fez-lhe muito bem feito, nem que tenha sido apenas para o folclore.

Este texto iria para o infinito, e não pode. Esta semana será gloriosamente eloquente e autodefensiva. Esta breve é apenas um esboço, e poderia estender-se por muitas outras mais. Para mim, que não estou afeto a clubismos políticos, apenas vejo o filme passar com o ar divertido das novidades. Espero que faça mossa, muita mossa, ao aleijão de Boliqueime, e lhe torne pesados os derradeiros meses do mandato. Pessoalmente, preferia que cometesse o gesto extremo de se demitir, para não dar posse a um governo contra a sua vontade, já que o cargo apenas foi ocupado para lhe fazer as vontades, mas a Democracia é demasiado poderosa, sobretudo agora, para olhar para ele com mais do que com uma reservada complacência.



(Quarteto do poucochinho monhé, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")


4.11.15

Transcrições das escutas da "Operação Marquês" - "Pá, metes as folhas na gabardine do Soares, e o que não couber vem depois na mochila do Duda..."








Imagem do Kaos, e dedicada ao Carlos Diogo Santos, pela coragem, por outras imprevistas aventuras comuns, et... pour cause






Do CD 253, da série "collector's prize" do Juiz Carlos Alexandre


(17.30 da manhã, toca o telefone na Cela 44, Évora)



C.S.S - Posso falar?...

J.S. - Podes, pá, mas com cuidadinho...


C.S.S - Como 'tá a cena aí?


J.S. - 'Tá sombria, mas passa-se, pá, passa-se... tranquilo...

C.S.S - Tu precisas de alguma coisa?... A Sofia disse que tu andavas meio encaralhado...

J.S. - Pá, quem é que não está encaralhado, aqui fechado o dia inteiro?...E se fosse só isso, um gajo não pode estar à vontade, não pode falar, não pode comunicar. Bem basta o que basta, depois os mirones todos a toda a hora..., se eu tomar o pequeno almoço, aqueles badochas todos a olharem, a ver se tenho alguma coisa nos bolsos, porra, a marca dos sapatos, o cachecol... eu queria passar desapercebido, pá, isto não é exatamente o lugar para ter plateias, para dar entrevistas, conferências, um gajo agora precisa é mesmo de sossego...

C.S.S - Pá, de sossego, sim... mas também de resolver a vidinha. Tu viste na televisão o João a mandar a Laranjo para o caralho?... "Houve" lá, o gajo tem tudo no sítio, olhou para a gaja e disse à cara podre que ela cheirava mal, foda-se.. (risos) ah, cabrão d'um caralho, ele é cá dos nossos... (risos) havias de ver a cara da gaja, parecia que tinha levado com uma esfregona molhada naquelas trombas... (risos) O gajo é bom... E os cabrões dos jornalistas, pulhas d'um caralho, não gostam de ouvir as verdades. Ela, a perguntar aquelas merdas, e o gajo virou o focinho para ela, e disse "você chegue-se para lá, que você cheira mal!..." Não viste? Grande cena, um la feria mesmo a sério (risos) "Houve" lá, onde é que tu arranjaste aquele gajo?... Deve ter sido o primeiro que teve colhões para dizer que os jornalistas cheiravam todos mal...

J.S. - Não digas isso, que a Nanda fica fodida contigo: há os que cheiram mal e os outros, os que são nossos amigos. Acho que esse gajo ainda foi uma encomenda do tempo do Jorge...

C.S.S - Qual Jorge?...

J.S. - Pá, isso são conhecimentos do tempo de Belém, do Sampaio, não sei, o Pedro é que fez os contactos, o gajo tinha um folha pesada do tempo das FP-25, é capaz de salvar o pai da forca, até crimes de sangue ele consegue transformar em histórias da guilherme... O Jorge é que parece que o indicou, era amigo do Mortágua, das bombas...

C.S.S - O Sampaio?... A "Chorona"?... Esse gajo também está em todas, fininho, fininho, mas lá te empurrou para cima e passou um pano em cima daquela merda toda do "Casa Pia" (silêncio) Vocês, naquela altura, estavam mêmo à rasca... Andavam ou não andavam à rasca?...

J.S. - Isso já foi, pá, os gajos estavam mesmo a ver a vidinha a andar para trás, cada um nos seus colos..., os meus não metem mesmo isso, pá, como tu sabes, eu sou um gajo mais de estudos...

C.S.S - Então, é assim, a "Soufie" disse que estava com um caralho de problemas para pagar a casa de Montemor, isto já meteu o pessoal todo, é telefonemas para trás, telefonemas para a frente, e o caralho, a Tânia, a Sofia para a Mara, a Mara para Leiria... Ah, a propósito, o cheque do Francisco já foi depositado, discretamente, que estes gajos andam a controlar tudo, mas fica descansado que o cheque já foi depositado...

J.S. - Pá, agradece, quando puderes, vocês têm sido impecáveis, mas eu agora tenho de andar aqui com mais cuidado, leituras de manhã, à tarde e à noite...

C.S.S - Se o problemas são livros, eu posso ir aí levar... (risos)

J.S. - Olha, por acaso, é assim... Livros, até tenho..., queria ver era se arranjavas mais umas fotocópias dos testes do explicador do Duda, isto vai haver exames e eu e a Sofia queríamos que o puto estivesse nos conformes...

C.S.S - Mas queres que fotocópias?

J.S. - Só as dos testes do Duda. Todas as que arranjares, pá, todas as que puderes...

C.S.S - E faço como?...

J.S. - Pá, faz como puderes, mas à cautela, que os gajos andam a vigiar tudo...

C.S.S - Queres quantas, um molho de cem?...

J.S. - Traz o que puderes...

C.S.S - Vou falar com a Sofia. Vamos arranjar todas, o gajo (risos) vai fazer testes todos os dias... (risos) vai ser avaliação contínua... (risos) se o cabrão do Crato sabe disto ainda te rouba a ideia... (risos) Ah, meu sacana, quem diria que tu, aqui fechado em Évora, que tu ainda ias fazer a melhor reforma do ensino desta choldra... (risos)

J.S. - E quando é que tu trazes os testes?...

C.S.S - Olha, é assim, o cota acho que quer vir amanhã visitar-te outra vez... O gajo está mesmo apanhado, dizem que anda a identificar-se bués contigo..., chora, quando lhe falam de estares preso..., ah, caraças, os "nossos irmãos" nunca nos desiludiram...

J.S. - Pois...

C.S.S - Então, é assim, quando ele vier amanhã, podemos meter alguns testes na gabardina do avozinho (risos) acho que o vovô Soares vai pensar que são lenços para limpar o nariz... (risos) depois, para te passar aquilo para a mão, dizes que também tens a batata a pingar... (risos)

J.S. - 'Tá..., combinado... (risos)

C.S.S - ... e o resto traz o Perna. O gajo, porra, anda a odiar esta merda da publicidade, tem medo que lhe estraguem a carreira, e tem razão, isto bem visto, se não for controlado, ainda nos pode foder a vida a todos...

J.S. - ... e os testes chegam quando?...

C.S.S - Pá, já te disse que o nafarros vem amanhã, e passam muitos no bolso. Se for preciso, repete-se a visita, e vem outra vez para a semana... Quantas tu quiseres (risos), até pode vir visitar-te todos os dias... (risos) e o resto nós metemos na mochila do Duda e ele vem trazer... até acabar...

J.S. - Pá, não sei como te agradecer...

C.S.S - Mano, somos amigos, a amizade é para isto que serve...

J.S. - Eu sei, há muitos anos que conto contigo, com o Pedro, com o Man'el, pá, se não fossem vocês... (pausa)

C.S.S - Deixa lá isso para lá, pá, agora deu-te para a sentimentalidade, um gajo quando anda nestes filmes tem de deixar a sentimentalidade para o lado, ou não é?...

J.S. - Claro que é!...

C.S.S - Olha lá, se tu agora fosses um gajo livre, sei lá, como vais ser, quando a gente te tirar daí... (pausa) Escuta, posso fazer uma pergunta?...

J.S. - Claro

C.S.S - Escuta, se tu agora fosses um gajo livre..., preferias que eu te trouxesse os testes do explicador do Duda, ou... (pausa) ou... (pausa) ou... dinheiro?...

J.S. - (silêncio)

C.S.S - Zé, responde, assim na boa, na boinha mesmo...

J.S. - (silêncio)

C.S.S - Zé, escuta, 'tou eu só aqui e mais a tua mãe...

J.S. - (pausa) ... a minha mãe está aí?...

C.S.S - Sim, temos estado a discutir essas cenas dos testes. Sabes que ela sempre foi impecável em tudo, impecável, nunca disse não, e avançou sempre p'á frente... (pausa) E é por isso que eu 'tou a repetir a pergunta, Zé, se fosses um gajo normal, cá fora, com a folha limpa, um gajo pronto para avançar, para ser o nosso Presidente da República..., Zé..., um gajo com a pica toda, Zé..., escuta... vais responder?... Se yu 'tivesses na muito boa, preferias os testes do Duda, ou... money, money, money?...

J.S. - (silêncio)

C.S.S - Zé, 'tá aqui a tua mãe ao lado, tudo na boa, tranquilo, preferias os testes do explicador do Duda, ou papel do limpo?...

J.S. - (silêncio)

C.S.S - "Houve", 'tamos só nós os três, eu tu e ela... Preferias os testes, ou dinheiro?...

J.S. - (silêncio)

C.S.S - (silêncio)

J.S. - (silêncio) ... os testes

(Fim da escuta)

(Quarteto do ai, duda, duda, duda, duda a minha agulha, aduda, aduda aduda o meu dedal, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")


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