13.5.15

A Parábola dos Rastejantes de Fátima, como Quinta Essência do incontornável Egoísmo Lusitano






Fátima insere-se no meu profundo desprezo, e não frequência, dos Três Éfes. Devo ser dos raros portugueses que não foram, nem nunca irão, à Cova da Iria, nunca porão os cotos num estádio de futebol, ou irão ouvir Fado, exceto a Amália, que cantava até que a garganta lhe doesse... Bom, vá lá..., até vou ser generoso, e tiro a Amália deste meu desprezo absoluto pelos pilares da insignificância nacional, por que acho que a mulher tinha, e tem, algo na voz de imortal, só é pena já estar morta.

Contudo, não frequentar os espaços da menoridade nacional não implica que não tenha opinião sobre eles, desde o gentílico ao metafísico: ter uma mãe chamada Maria do Amparo, Maria das Dores, Maria do Rosário, Maria de Fátima ou Maria de Jesus, entre outros, é toda uma epopeia negativa, e condicionante de um percurso existencial. Eu, que sou todo das genéticas, e acho que um defeito num terminal cromossomático de há 5 000 000 de anos atrás pode ter condicionado, e condicionou mesmo, um gestor das empresas falidas do terminal lusitano, mais acho que, um pouco à Lamarck, isso de ter certos nomes pela família determinantemente condiciona os nossos horizontes de sucesso. Com mor evidência, nem todos se podem chamar de Valois, mas Perneta, Vaicomdeus, ou Vaisemdeus é uma coisa que marca, e empurra a vida para um limbo entre o errante e o errado, e aqui fica o convite à reflexão.

Como a noite é santa, todavia, vamos passar adiante, e pensar um pouco sobre aquele fenómeno a que é associada uma carga posicionada entre o místico, o fervor e a comunhão. Na realidade, essas coisas estão todas mal descritas, pecam por vícios de forma, e só não encaixam nos mitos urbanos por que apenas se inserem no patamar dos mitos das aldeias de onde nunca logramos (novo acordo ortográfico) passar. Analisado enquanto fenómeno étnico, fratura sociológica ou epifenómeno da iliteracia, o Rastejante de Fátima, entrada que Diderot e D'Alembert dificilmente poderiam colocar na Encyclopédie, mas sobre o qual o destino, e a inspiração, me fadaram escrever o texto de hoje é uma categoria com algumas singularidades, por acaso, todas elas negativas.

A máquina publicitária das televisões, jornais e afins, que situam o evento anual em patamares entre os fototropismos e o puro escândalo está, como quase tudo nesta contemporaneidade, a que passei um atestado sumário de imbecilidade, nos antípodas da minha reflexão: enquanto pagão, não posso entender o ateísmo que subjaz ao rastejamento de Fátima; enquanto livre pensador, não posso compreender a publicidade dada a manifestações que deveriam ser tratadas como subprodutos de um povo profunda, e atavicamente, iletrado. Cientificamente falando, a cobertura de Fátima são meros gastos de luz, de tempo de trabalho e, numa ótica marxista, ou neoliberal, o que vem a dar no mesmo, puros tempos de quebra de produtividade, em cujas "gorduras" se deveria imediatamente cortar.

A esta altura já estarão a perguntar o que é que este gajo quer destruir hoje, com o pretexto de vir falar de Fátima, e eu explico já, posto que a morte de uns quantos peregrinos, o que lamento, na generalidade, por ter tido como protagonista um gajo bastante mais interessante do que o impotente Cristiano Ronaldo, o que, na especialidade, lamento, me levou a pôr em questão todo o problema, e a remetê-lo para os níveis de reflexão de Anselmo de Cantuária, um aristocrata que, há milénios, conseguiu pôr gerações a sonhar e a meditar. Aquilo que eu chamaria o Argumento Anti Ontológico enuncia-se assim: se aqueles que vão a Fátima procuram uma consubstanciação com a Senhora, ao lá chegarem, lá estão mesmo, assim como a Senhora, ao tê-los (novo acordo ortográfico) ali chegados, pela própria natureza da consubstanciação, com eles passa a partilhar a essência, miraculosamente tornada em presença, o que é uma prova evidente da sua existência (dela, a Senhora).

Esta é a versão boazinha, posto que, tal como no Concílio de Calcedónia (451), se nem todos os peregrinos que iam a caminho de Fátima lá chegaram, a consubstanciação ficou, ainda que em partes limitadas e remotas, comprometida, sendo que a Aparição e a Procissão do Adeus, será, desta vez, processada em redor de um ídolo ferido de incompletude, pela morte das partes humanas que com ela buscavam a comunhão espiritual e a partilha das evidências em presença, e ficaram atropelados pelo caminho. Ontologicamente, a Santa apenas poderia ser considerada completa se todos os que buscavam o acolhimento no seu seio lograssem ter alcançado a sede mundana da sua veneração terrestre. Esperemos que a parte que lhe falte não seja a virgindade, o que destruiria 2000 anos de empenhados esforços, e é esta a versão que nos deixa em dor e dúvida, penando para que sobre nós o anátema se não abata.

Depois da versão boazinha e de a do Limbo, vem a Má, já mais Portuguesa, e que motiva este meu texto: se a Santa realmente existisse, nunca permitiria que pelo caminho morressem aqueles que iam em sua demanda, qual doméstica Taprobana, e isto seria uma prova da inexistência da Senhora. Contudo, como a versão má, de profundis, ainda clama pela solução péssima, fui eu que fiquei a pensar no que estariam a pensar os rastejantes de Fátima sobre a inoperância da Santa, num ato simples como ter permitido que aqueles que iam em sua busca, de peito feito e coração aberto, acabassem esmagados numa berma da estrada. Não sei o que pensaram, mas prosseguiram, pelo que, depois da versão péssima, achei que nos estavamos (novo acordo ortográfico) a abalançar a um patamar ainda inferior, o da típica versão portuguesa, que eu passo a enunciar: sendo o fenómeno de Fátima um típico exibicionismo de matilha, que, à cabeça, segrega os que vão dos que não vão, ou mais pragmaticamente falando, os que podem ir dos que não podem ir, ou, citando a última palavra do último verso do Canto X de "Os Lusíadas", ali estamos no puro exercício da "enveja" (ortografia do séc. XVI, posteriormente convertida em "inveja", por uso e construção).

Torna-se hermeneuticamente complexo -- agora que, com a descoberta de que o cabrão do Heidegger era mesmo nazi e antisemita, a hermenêutica deixou de ser monopolar -- de que o rastejar de Fátima -- e vamos passar da versão portuguesa para o meu epitáfio da situação, substancialmente ainda pior -- de que o rastejar de Fátima é mais uma manifestação de egoísmo nacional, ou daquela célebre frase do José Gil, de que o português gosta, não de liberdade, mas, sim, de igualdade, ou trocado por miúdos, o Português realmente gosta de eventos em que possa exibir a sua situação de desigualdade, perante os pares. Isto, pela minha ótica (novo acordo ortográfico) resulta numa leitura fria e literal: de entre a imensa multidão de Rastejantes de Fátima, já que só morreram cinco, que até, se calhar, eram peregrinos e não rastejantes, desde que os restantes rastejantes não tenham morrido, a coisa até se safa, muito à rasquinha, mas safa, já que quem morreu foram eles, não nós (sendo que aqui o "nós" é um plural desses rastejantes, que, obviamente, não me inclui).

Topologicamente (acordo ortográfico dos anos quarenta) estendido, o raciocínio vai mais longe, já que separa os que lá conseguiram mesmo chegar dos que nunca chegarão, e, uma vez chegados, ainda exercerá diferenças entre os que se conseguem aguentar mais dias daqueles que se não conseguem aguentar todos, e serão muitos, o que alimentará a "enveja", e fará com que os iguais se sintam mais iguais e silenciosamente sintam pelos outros -- paciência -- a pena de que não tenham conseguido ser iguais..., à justinha.

Conclui-se que os que lá estão, em momento nenhum das suas preces conseguem sair do seu atávico solipsismo e onanismo, mas apenas estão ali para pedir por si, e os outros... que se lixem.

Este ano, parece que o grande mote é a Senhora da Apodrecida. Mas não se enganem, quando, no final, virem um  mar de gente a acenar lencinhos, não se trata de uma massa unida, mas de uma multidão de egoístas que lá foi fruir o seu milagrezinho pessoal, e, como diriam as estatísticas, lá conseguiu, ou... não conseguiu. A Claque do País da "Enveja", em bloco.

Dada a minha formação científica, ainda me permito uma derradeira versão, porventura mais motivadora e adrenalizante: o encontro entre os pacatos peregrinos de Mortágua e Levani Moseshvili, o alucinado, cheio de álcool e de drogas, que os atropelou, é algo equivalente à colisão que, milhões de anos atrás, deve ter ocorrido entre os pequenos répteis, sobreviventes do extermínio dos sáurios, e a nova classe dos mamíferos, sendo que os segundos, muito alafontaineanamente, devem ter pensado,"o que fazem estes gajos aqui?...", e o primeiros, "que gajos serão agora estes"?...

Objetivando (novo acordo ortográfico) a coisa, o acidente de Mortágua deve ser relido como uma colisão entre dois paradigmas, que, cronologicamente, deveriam estar feridos de disjunção, já que eram o equivalente a uma impossível máquina do tempo: uma era de peregrinos é incompatível com um mundo de aceleras dopados com químicos, e vice versa, embora nós saibamos que, numa perspetiva (novo acordo ortográfico)  cobordista, muito à René Thom, essas coisas acabam sempre por se entropizar, e, tal qual os maiores lagartos acabaram a comer os pequenos mamíferos, e os grandes mamários a comer os pequenos répteis, também um dia haverá rastejantes aceleras, que quererão chegar primeiro a Fátima, nem que para isso tenham de atropelar uns quantos georgianos embriagados que estejam a dançar a dança do ventre na berma da estrada.

Eu sei que este texto é mau, mas, acreditem, sobretudo os crentes, que é uma singela homenagem ao ignóbil evento do 13 de maio, uma coisa indigna de uma sociedade civilizada, e incompatível com um mundo religioso, já que a religiosidade do Mundo foi definitivamente enterrada por um dos maiores facínoras do século XX, Karol Woytila, que, numa cega competição com IURDs, Igrejas de Cientiologia e outras merdas afins, resolveu transformar o Grande Dogma Cristão numa manifestação de massas embrutecidas e alucinadas, em redor de cadáveres de pastores iletrados. A coisa era barata, dava milhões, não pagava impostos, e destruiu, ou conseguiu destruir, em duas curtas décadas, a fronteira intelectual (aqui leva "c", por que o "c" se pronuncia - novo acordo ortográfico) do Dogma, remetendo-a para o chiqueiro das opiniões e dos fundamentalismos, que tão caros estamos agora a pagar. Creio ter sido este o grande milagre de João Paulo II, atirar-nos para os valores e práticas da pior Idade Média.

Para acabar com um pouco de esperança, percebo que se rasteje até Fátima, para venerar uma Santa com Cara de Saloia, que incarna aquelas moçoilas de 13 anos, na altura certa em que o padrasto as estreia, antes de se tornarem nos hipopótamos de hipermercado, que à frente arrastam a tralha dentro de um carrinho de bebé, com o seu ídolo narcísico, teresaguilhermado, ao lado. Brevemente, creio, com a crise que aí anda, eu próprio, que afirmei, no início, nunca ir a Fátima, lá terei de fazer o esforço, por extinção dos genuínos, e já me vejo, nos beirais de terras que nem sei que existem, com a Aura Miguel, um pouco mais à frente -- dizem que ela vai a Fátima, por que, todas as noites, há a alma de um papa defunto que incarna em súcubo e lhe possui as partes ressequidas, pelo que, quanto mais noites demorar pelo caminho, mais vezes o palmier será recheado com beato creme... Pela minha parte, irei com uma caçadeira, e, com o jeito que tenho para o tiro, em vez de decapitar a Santa com Cara de Saloia com um só tiro certeiro, acabarei por a desfazer, com uma série de rajadas míopes e mal amanhadas.

P.S. -Deverão estar a interrogar-se por que, de quando em vez, referi, em nota, o Novo Acordo Ortográfico: por uma razão simples, a de que a Língua é construída pelos escritores, pelo que, utilizando eu o Acordo, desde 2009, bem se podem espremer por o tentarem impugnar os que nisso andam. A minha decisão é a de que, mesmo revogado, o continuarei a utilizar sempre, pelo que, de aqui a 100 anos, o Acordo Ortográfico se impôs mesmo, pela única mão com autoridade para o fazer, a do Escritor. Que a Santa esteja convosco e vos dê o vosso pedido egoísta, que vos arrastou até à Cova da Iria :-)




(Quarteto do a Trêuze de Maio na Cova d'Iria, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")

8.5.15

A Tap, ou o BPN alado (Director cuts)







Dedicado aos irreverentes deste mundo, no qual se pode incluir Pedro Cosme Vieira, com que o país do Santo Ofício resolveu agora implicar, pá, manda-os levar no pacote!... Não, não mandes, que eles gostam!... :-)


O mal das história de voos é que são infinitas. Já falamos de freiras que não queriam ser vistas de cima, a serem encavadas pelo Sereníssimo D. João V, e do Salazar que pôs as freiras todas, ou quase todas, a voar, sem que com isso conseguisse impedir o aumento da fornicação, bem pelo contrário, como diria o Paes do Amaral. No final da carreira, ficavam as cinquentonas em terra, confinadas às sombras, e às madeixas, para disfarçar as rugas, muito coladas ao "Badoo" e a aviarem rapazes da Groundforce, a troco de notas de 100 €.

Toda esta visão, todavia, pecava pelo eurocentrismo, já que todas as religiões voam, e umas mais alto do as outras. Lembro-me sempre da minha querida psiquiatra, cujo filho se casou nos meios diplomáticos das Monarquias do Golfo, onde se fala da Europa como o "Museu do Novo Mundo", e isto entre brindes de champanhe, nas poltronas de couro verdadeiro da Air Qatar, 30 000 pés acima de Doha, o que contraria as visões modestas de Salazar e muito mais modestíssimas do "Magnânimo".

A verdade é que se não tivesse tido de cortar o meu texto inicial, teríamos de falar daqueles que debandaram de Portugal pela porta grande, e foram fazer de hospedeiras e comissárias das linhas aéreas do Golfo, onde não querem freiras a voar, mas as expectativas são altas, já que, como desde que o mundo é mundo, enquanto uns voam os outros ficam a ver voar, variando as estatísticas entre a visão dos que oprimem e dos que gostam de ser oprimidos. Como não me enquadro em nenhuma das categorias, já que adoro ensinar as pessoas a libertarem-se das suas pequenas opressões e fantasmas exteriores, pensei, para que quererá a Air Qatar tanta morena portuguesa e tanto gajo descendente de Neaderthal?...

A verdade é que, como no Bahrein -- um paraíso na terra, onde, quando perdes o emprego, és imediatamente recambiado para o país de origem -- por cima das costas do Próximo Oriente, ou se está nas poltronas de couro da Emirates, ou se está a ser decapitado pelos suburbanos do ISIS, como o célebre Fábio Poças, já conhecido pelo Manoel de Oliveira de Ninive.

Parece que esses gajos acreditam em que há 20 000 virgens à espera deles num sítio qualquer, mal abandonem este Vale de Lágrimas. Entre isso e o solzinho a dançar, o intervalo epistemológico é nulo, mas os recursos são diversos, já que, para gente que nem sabe onde fica o Polo Norte e confunde Buda com deus filho, nalgum lado as virgens devem andar. Em hipótese, já que as teorias se tornaram vagas, desde que a própria Partícula de Deus começou a aparecer à venda no LIDL, é possível que os suburbanos barbudos de Londres, Paris e Mem Martins, que veem passar no alto os Airbus300 acreditem que as 20 000 lá vão dentro. Se tratassemos a coisa cientificamente, eu poderia responder que o número é substancialmente menor, mas, usando o argumentum ornithologicum, de Borges, para quem passa os dias a comer areia e a assassinar, vai tudo dar ao mesmo, quer vão a bordo 20 ou 20 000. Assim se explicará que, com as chacinas em massa, muitas delas pelas mãos das nossas tropas especiais, que os penduram pelos pés, e lhes dão duas refeições por dia, porrada ao almoço e porrada ao jantar, e no permanente estado de alucinação em que as drogas os têm, morram e imediatamente voem para cima, colocando os A300 em situação de overbooking, coitadas das hospedeira do Norte, que falam inglês com o sotaque xanxo do Bolhão e subitamente veem chegar o lixo suburbano aos lugares de coxia. A grande surpresa, e nas companhias em que não há greves -- se houver, cortam-lhes as mãos -- é que nem todas as virgens são fêmeas biológicas, como está cientificamente estudado, e, por muito que as companhias se tenham AIRbusado e abusado, a matriz continua a mesma.

Que será do Fábio Poças, quando for abatido, e aparecer a bordo de um AIRbus da TAP em busca de 20 000 virgens e lhe aparecer um punhado de dengosas chiadenses, a perguntar se quer chá ou café, já com os cantos da boca salivados?... Com um bocado de azar, ainda ressuscitava o João Solano, -- um antepassado do tarado Andreas Lubitz -- que fazia picagens de voo raso pela Praia do Cavalo Preto, não para despenhar aviões, mas para que os turistas, de olhos arregalados, vissem como primeira paisagem portuguesa a "mangueira" da Laura "Bouche", no seu eterno trá-lá-lá de nudista da costa algarvia. Como o passado se torna tão moderno, e quem diria, a verdade é que esta greve continua a ter um excelente cariz de fait divers, ou seja, os pilotos continuam na pilota, depois de terem bazado da Força Aérea, onde custaram 100 000 € de formação, para se meterem na aviação civil, e, agora que o avião certamente vai naufragar, saltarão que nem ratos para as Air Qatar anexas, com salários decuplicados, deixando atrás de si apenas pó e ruínas.

"Consta-se já de que" brevemente haverá a "Tap Boa" e a "Tap Má".

A Má certamente ficará para os nossos bolsos de contribuinte, ah, sim, pois, com certeza.



(Quarteto das 20 000 virgens, com pelos no peito, do Fábio Poças, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")


5.5.15

A TAP, ou o BPN alado






Dedicada ao Filipe Moraes Alçada, pela excelente semana de companhia, fora deste buraco, no triângulo das cidades civilizadas, Londres, Paris e Bruxelas (se havia greve, não demos por ela...)




É sabido que em Portugal não há Ciência, mas milagres da Fé e causas naturais, pelo que a greve da TAP não pode ter causas científicas, mas ser um fenómeno natural ou uma exceção ditada pela Fé. Como sou generoso, escreverei um texto que agradará a ambas a correntes, e vamos já às causas naturais, que são antigas, e remontam aos tempos em que o Sereníssimo D. João V, nos primórdios do joaninha, avoa, avoa que o teu American Express foi para Lisboa, mandou queimar a "Passarola", do Padre Bartolomeu de Gusmão, pelos acidentes eucarísticos que diziam que um padre não devia voar, muito menos nas vizinhanças reais, e ainda menos nas alturas e paranças em que sua Majestade Catolicíssima estava a mocar com freiras e madres nas moitas: a coisa, vista de cima, ainda era mais indecente do que aquela mulher da vida que o José Rodrigues Miguéis, muito divertidamente, e em boa escrita, cosa rara, diz que os beatos pastorinhos confundiram com a Santa com Cara de Saloia, que depois deu origem aos rastejantes de 13 de maio. Sendo mais cultural, por que a Cultura não ocupa lugar, quando o Papa Freiras mandou queimar a "Passarola", já Ahmed Çelebi tinha 100 anos antes voado, para espantar o alcoólico Murad IV, do alto da Torre de Gálata até Scutari, onde o sibarítico Gulbenkian viria a nascer. Como Murad preferia o álcool às freiras, não queimou a passarola do outro, mas resolveu recompensá-lo, o que prova que a Civilização é sempre civilizada, e tudo o resto são quintais.

Salazar foi mais modesto, e aproveitando a boleia de Humberto Delgado, resolveu criar uma legião de passarolas que ligassem o atraso de vida peninsular aos seus atrasos de vida coloniais. Vi, no outro dia, num zapping, que a TAP se chamava "Linha Aérea Imperial", o que nem lhe ficava mal, não fosse o Império a miséria em que o miserabilismo de séculos a tornara, mas isso era irrelevante, já que Salazar, um homem de tradições, resolveu levar mais além o sonho de D. João V, e, já que não comia freiras, resolveu colocar as freiras a voar, e eu aqui explico este salto, que pode parecer impróprio de um sobredotado, como eu, para se encaixar na realidade. Na verdade, e eu não sou dessas eras, havia profissões em que as mulheres, antes da Abrilada, não se podiam casar, entre as quais, tanto quanto me lembro, estavam as enfermeiras e as hospedeiras. Sem enfermeiras até passamos bem, já que o Passos Coelho as convidou todas a emigrar; já quanto às hospedeiras, o Vacão de Santa Comba, pôs-lhes asas e um selo na rata, quer dizer, não era bem um selo, já que havia um intervalo epistemológico entre o não casar e o não levar na cona. Daí deriva, creio, que nas alíneas dos contratos das Linhas Aéreas Imperiais vinha expressamente dito, "não casarás", mas nunca uma interditação ao implícito convite do "mas... foderás".

Para os incautos, que até hoje procuravam causas naturais para o elevado nível de fornicação associado às companhias aéreas, se terá de dizer que foi obra de Salazar, e alimentou os sonhos de gerações: quantas e quantas vezes o voo chegava do Lobito, ainda a cheirar a catinga, e já multidões de jovens mancebos, daqueles que depois iam deixar os braços e as pernas na Guerra do Ultramar, se acotovelavam nas pistas da Portela, para darem brutas canzanadas nas hospedeiras que vinham das Angolas, a precisarem de consolo no hangar. Nem Carlota Joaquina, nos cais do Rio de Janeiro, quando chegavam as naves de marujos da Europa...

Como não sou sexista, e também sei daquela terrível dificuldade que sempre houve em contratar comissários de bordo, já que, uma vez feito o teste da cadeira furada, medido o grau gutural da voz e tateada a maçã de adão, uma vez apanhados no ar, e com o contrato na mão, abriam o uniforme, mostravam as mamas, e davam ao cu -- e o cu -- aos gritos de surprise e we will surive!.., coisa que tanto levou depois a Troika a falar na necessidade de flexibilizar as leis laborais, já que a TAP, coitada, abria 10 lugares de Comissário de Bordo, e, pelo menos 8 eram verdadeiras hospedeiras, com contrato para o resto da vida... Para as feministas, aqui fica este pequeno carinho: devem defender a TAP com todos os vossos esforços, pois deve ser uma das empresas mais femininas de Portugal, tirando os cabeleireiros e os Alunos de Apolo.

Deve-se aos Capitães de Abril a ordem para casar das hospedeiras. Acontece, e aqui creio que tivemos um milagre da Fé, não foi com a libertação do casamento que se conseguiu privatizar a arte de bem levar na cona, e antes diria que a coisa enveredou por um neoliberalismo desenfreado, com atos de cópula a 32 000 pés, nos wcs, e nos porões de repouso -- esses lugares mágicos onde tudo acontece, e que tão pouca gente frequenta, mas eu tenho nas memórias mais carinhosas do meu coração, sobretudo, quando se deixa pelas costas o farol de Fernando de Noronha, e, pela frente estão as quatro horas de escuridão, até ao espaço aéreo de Dakar, ai, sódades, sódades... :-) -- mas vou voltar ao texto, senão perco-me...

Tudo isto seria fantástico se não desse prejuízo, e a TAP começou a dar prejuízo. Durante anos, creio que isto constituiu o chamado Terceiro Segredo da Portela, já que, com linhas em regime de quase monopólio, com a tutela dos chulos de Bruxelas, e as viagens pagas da Inês de Medeiros para Paris, onde ia esfregar o grelo lesbo, travessias de longo curso por preços insuportáveis, vije maria, como poderia isto dar prejuízo, não se tivesse a TAP BPNizado, ou seja, tudo o que havia de mau se pendurou ali. A reportagem sobre Lino da Silva -- custou, porra!... -- e a sua demissão, mostram que há sempre um je ne sais pas quoi que consegue ser pior do que tudo o que é evidente, um pouco como aquelas mortes súbitas, que vegetam pela sombra. Tal como no BPN, tal como no BES, tal como nas PPP há sempre um número muito limitado se sombras capaz de destruir uma grande empresa e lucrar com a desgraça dos outros, a questão é agarrar numa vara, desentocá-los e apontar-lhes um holofote bem forte, em cima. O caso de Shakaf Wine, outro filho da puta, do calibre do monhé Zeinal Bava, é só mais um. Eles estão por todo o lado e minaram não só o país como o planeta inteiro.

Sem que se perceba bem como, a TAP, ao BPNizar-se, enquanto BES Air, fez um pouco o percurso da PT-Telecom: permitiu a um punhado de pulhas tornar-se milionário, naquela estranha posição do Colosso de Rodes, com um pé na favela portuguesa e outro pé na favela brasileira, enquanto os colegas, a empresa e o próprio país eram atraídos para o vórtice. Estas coisas, evidentemente, têm rosto, e alguns azares que foram infortúnios da Fé. Fernando Santos -- que devia estar preso, sobreviveu a nove ministros dos transportes e a cinco primeiros ministros -- foi lá posto para fundir a TAP com a Varig, com o azar da Varig ter falido, e as despesas, os salários e os prejuízos ficarem do lado português, e os canalhas, como Carlos Costa Pina -- que devia estar preso -- a voarem para outras gestões ruinosas. Tudo isto, como reconhecerão, faz parte dos milagres da Fé e das causas naturais portuguesas, todavia, como faz falta uma parte de realismo nestas coisas, devemos relembrar que tudo aquilo que, tal como no BPN e no BES se não podia fazer diretamente, passou para as mãos de filiais discretas, a Air Luxor, que traficava diretamente a coca, e desapareceu, deixando o lugar das velhinhas de Arraiolos para as rastejantes de Boliqueime: nasceu a Hi Fly, a coca é a mesma, e as velhinhas de 70 anos foram substituídas por gajas com brutas mamas, que agora trazem a branca implantada nas tetas, e até o Efromovich, que queria que a coisa fosse feita a descoberto, e voltará, e justamente, ou conseguirá mandar um ainda pior, para o fazer por ele.

Este texto poderia tornar-se infinito, por que tudo isto se assemelha às metástases, mas às metástases de um cancro político, posto que, não estando a empresa privatizada, todos os governos que participaram neste carnaval deviam estar detidos e condenados por crime económico  ou uma coisa mais direcionada, antigamente conhecida por crime de lesa pátria. Tal como o BPN e o BES, a TAP é agora um excelente pretexto para limpar a Classe Política, pelo que, como já poderão imaginar, nada acontecerá.

Num patamar acima, e respondendo às dúvidas do Filipe sobre como é possível manter máquinas locais, ou gigantescas, a despenderem esforços e recursos, para rotas e finalidades que todos já identificaram como de desastre, as empresas cujo fim não é o lucro, mas o prejuízo, como Lino da Silva sonhava, vem a resposta lúgubre, da velha teoria da conspiração: tal como Bilderberg preconiza, é fundamental que enormes falésias de civilização se desmoronem, para que a sociedade dos escravos, com que o grupo há tanto sonha, se instale, e a Nova Idade Média, onde os grupos, cada vez mais isolados, se sintam estrangulados, enveredem pela necessidade de canibalismo e tracem o admirável mundo devastado. Como nas Eleições Inglesas, vencerá o pior. Esses serão os amanhãs que vão cantar, onde tudo o resto são meras telenovelas, a que, creio, nós que vemos, assistimos incrédulos. Os outros já há muito perderam os olhos.



(Quarteto do colapso aéreo, no "Arrebenta Sol", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")
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